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Opinião

"Enquanto eles se batem Dê um rolê e você vai ouvir Apenas quem já dizia Eu não tenho nada antes de você ser eu sou..." A vida nas cidades nesses séculos era muito mais solitária que solidária. A noção de isolamento estava fortemente impregnada na subjetividade das pessoas. No entanto, a realidade tem essa mania de, em algum momento ser mais forte que qualquer construção ideológica.  Além da insatisfação das pessoas com as intempéries da vida, que desde o inverno do ano anterior, continuavam  irrompendo em forma de  lutas, greves e passeatas, havia o calor. Aquele era um dos verões mais tórridos que o Rio de Janeiro havia enfrentado. Em tempos de tantos individualismos, a experiência extrema de se sentir vivendo numa caldeira, era um fenômeno vivido coletivamente. Mas como tudo o que é coletivo na  sociedade de classes, as elevadas cifras dos termômetros não eram vivenciadas da mesma forma pelas diferentes pessoas. Aqueles que podiam, mantinham seus...

455 – Parte I

“Saudades de você, de nós e até de mim.” Ela derretia num ônibus que se movia como uma estufa entre o Meier e a Praça XV. Em meio a tantos afazeres que a aguardavam do outro lado “da poça“, arrumou uma janela para pensar. Releu suas anotações e percebeu que escrevia muito nesse caminho. Era nesse endereço da zona norte que ela guardava parte da sua tranquilidade e ia buscar quando precisava. Sentia sua vida meio fora de controle nos últimos tempos. O zilhão de coisas a fazer pareciam a engolir, dando a sensação de sufocamento, insuficiência e incapacidade. Sabia que não era possível ter tudo o que desejava. Nem desejar as coisas a qualquer preço. Muito menos as pessoas, que não são como bibelôs, e se importam quando são colocados numa caixa no fundo do armário. Estava duplamente angustiada. Tinha receio da distância ter mudado algo entre eles. A insegurança que há muito não a visitava, começou a gritar nos seus ouvidos. Sentiu muita vontade de ouvir aqueles sentim...

Encontrar (-se)

Ela estava estafada da vida e do mundo. Quando percebeu que o estresse chegava a níveis periclitantes, decidiu tentar tirar uma folga dos seus problemas. Aceitou o convite para visitar aquele seu amigo tão querido, um dos palhaços mais sensíveis e lindos que já conhecera. A estadia incluía, além das boas companhias de sempre, farta programação de risadas,  música da  boa  e outras formas de sair e voltar a si e ao mundo. E foi numa dessas madrugadas de lavar a alma, que Ela esbarrou com um típico representante dos seres humanos. Ele estava lá em algum canto do segundo bar da noite. Até onde o grau alcoólico a permitia lembrar e o som daquele rock bem cantando a deixava escutar, ele se recuperava de um daqueles grandes eventos da vida, como falecimento ou separação. Uma dessas experiências de ruptura unilateral que uma pessoa faz com a outra e, mesmo sabendo que vai ou pode acontecer um dia, ficamos muito tristes  diante da realidade ensurdecendo nossos ouvidos. ...

Limite

subjetivo: adj. Relativo a sujeito.  Que existe no sujeito. Ela estava diante daquele corpo magro e todo entrelaçado por cordas, que pedia para que ela o espancasse. Meio hesitante desferiu a primeira chicotada. O couro negro ia fazendo marcas vermelhas na pele branca e fina. Cada vez que ouvia o estalo do impacto naquelas costelas, era como se doesse nela mesma. Sentiu muita pena do menino da barba de fogo até perceber que não provocava sofrimento. Ele não só sentia prazer, como pedia mais. Em instantes, sua culpa se foi e deu lugar a uma satisfação que ela nem sabia ser capaz de sentir. Nunca achou que poderia estar numa posição tão distante da submissão e tão cheia de certeza do que queria. Os jogos que envolviam    prazer e  dor foram incorporados à relação dos dois por algum tempo. Ela gostou muito dessa brincadeira. Mas não era só a experiência intensa com o corpo que proporcionava a ele, que a atraía. Só foi perceber muito tempo depois que estar diant...

Um outro par de olhos

" Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre Só uma parte de mim compreende Que a voz dos teus olhos É mais profunda que todas as rosas Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas " e. e. cummings Ela estava à beira do sofrimento. Nem sabia ao certo a cor daqueles olhos, pois nunca conseguia olhá-los por mais que uma fração de segundos. Quando a dona deles apontava-os, era como se uma tonelada a empurrasse para trás. E foi exatamente nesse momento em que buscava dentro de si mesma uma outra forma de estar com as pessoas, que encontrou tão agradável companhia. E assim descobriu o significado da palavra centrípeta, pois fo i impossível não se atrair por aquela personalidade tão incomum. Não demorou para perceber o que sentia, mas tentou ignorar por um tempo para ver se passava. Quando se deu conta, estava exatamente naquele ponto em que não tinha mais condição alguma de se afastar, mas também sabia que não podia, nem queria avançar. A don...

Baseado em fatos surreais: as ternuras neglicenciadas do cotidiano

Ele se escondeu atrás daquele sorriso envergonhado. Aquele que vinha acompanhado de um rubor bonito de se ver. Quando fazia isso, deixava escapar muitos fiapos de humanidade de uma forma leve, quase ingênua e invejável de tão bela. Me fez lembrar que a vida também pode ser preenchida de ternura. Digo isso, pois vejo que passamos - não me excluo disso - muito tempo construindo e justificando nosso ponto de vista sobre a vida e elaborando formas de seguir em frente, apesar de nossas experiências negativas. E, nesse processo, nos esquecemos que a nossa existência pode ser mais leve e bonita. E acho que, sem querer, esse mocinho acabou me dando um puxão e me lembrando dessas ternuras que estava negligencinando tanto. Não posso negar que ele nunca tinha me passado despercebido, mas também não conseguia entender a razão de me chamar tanto a atenção. Cheguei a tentar, mas a  quantidade de álcool ingerida me fez soltar várias teorizações acumulad...

Baseado em fatos surreais: Flashes de memória

Seu melhor amigo ao telefone, perguntava, movido por uma sutil ansiedade, quem ela levaria à festa de aniversário dele. Teve dificuldade em responder. Estava exausta. A pergunta feita por ele, fez com que seu cérebro passasse um filme com direito a comentários do diretor, sobre as últimas 24 horas de sua vida. A fita foi rebobinando em saltos não lineares. Primeiro lembrou-se da noite anterior. Mas antes disso, havia passado o por do sol jogando cartas com aquela garota dos cabelos avermelhados.  Quando a festa começou, separaram-se por uma cerveja ou duas. Ela encontrou aquele amigo do olhar perdido, que sempre tentava se aproximar mais do que era possível. Repetindo o que já tinha acontecido algumas vezes, ele tentou lhe roubar um beijo. Ela virou o rosto para o lado ato num reflexo e viu de relance os cabelos avermelhados batendo em retirada. Ele ficou alguns segundos a olhá-la com a expressão de quem espera uma resposta. Como não sabia muito bem o que dizer numa situação ...

Baseado em fatos surreais: Não é você, sou eu!

Era para ser só um sexo bom. Sem grandes expectativas de futuro. Só bom. Não teve paciência para fazer muitas perguntas na noite em que se conheceram. Sabia que era um futuro engenheiro e que estava aberto a aventuras, pois esbarrou com ele perdido em uma festa no instituto de artes, um dos  seus favoritos territórios de caça de tempos idos. Ele fez companhia a ela até a noite terminar, o que só aconteceu num dos bares do “submundo” da cidade.    Ela achou que não pararia por aí, mas ele insistiu em deixar o restante da história para outro dia. Estava sem carro, tinha de acordar cedo no dia seguinte e mais algum blá blá blá, que ela não teve cognição suficiente para questionar, pois já eram quase cinco da manhã. Não valia à pena tentar convencê-lo a dizer a verdade. Deu o número do telefone. Paciência! Após algumas ligações não atendidas (ela era distraída), e compromissos inadiáveis de última hora (e muito ocupada), eles finalmente conseguiram combinar...

A profissão mais antiga do mundo

A Rua São João é um lugar altamente comum. Como toda “Zona do Baixo Meretrício ” de qualquer cidade. Pelo menos é assim que a conhecia, até certa noite. Fui com o Thiago (mais um na minha vida!) um amigo músico (mais outro!!), daqueles que não precisa muita convivência pra ter identificação. Ele estava de passagem pela cidade e foi com um amigo de infância e estudante de cinema. Após fecharmos um bar da "zona familiar" da mesma rua, fomos parar na outra ponta, que, até então era para mim, apenas uma concentração de bares "pé-sujo". Encorajada por duas doses de Ypióca , abordei as meninas com alguma desculpa esfarrapada, que elas tiveram a sensibilidade de desconsiderar. Percebi que, por mais que a classe social demarque algumas diferenças, a opressão é meio universal. Só agora percebo que não fui movida por uma curiosidade antropológica, mas por algo muito maior, uma identificação que fez com que as perguntas não ficassem no âmbito do "como é sua vid...