domingo, 3 de julho de 2011

A tênue linha entre o desejo e a razão

Ela escrevia à esmo, para passar o tempo e espantar a insegurança. Tentava lidar com sentimentos que estavam pairando sem lugar, sem materialidade. É claro que os sentimentos não precisam ter materialidade. Sentimos e pronto! Mas, no caso dela, não chegaram a tomar forma alguma, nem de pensamento.

Ainda não sabia sobre o que queria escrever. Tantas coisas estavam perambulando por sua cabeça. Ultimamente andava indo para a cama com um livro em que mulheres contavam sobre seus desejos.  Estava muito impactada por esses relatos poéticos, pois o "desejar" era algo difícil de lidar.

Era quase sempre tenso, confuso, sem lugar. E quando conseguia, por vezes era acompanhado de culpa. Era como se precisasse de autorização para desejar. E tinha uma relação distanciada com seu próprio desejo. Demorava para percebê-lo. E,  quando o percebia, achava difícil não agir.
E ela também não gostava nada de agir por impulso. Identificava que esse não era o seu melhor “modo operante”. Optava por uma ação mais consciente. Sempre procurava dar conta de justificar seus atos, caso fosse questionada.

Estava ainda em processo de aproximação com seu desejo. Aos poucos ele estava ganhando um lugar em sua vida. Não era um processo fácil ou suave em todo o tempo. É que, ser coerente, para ela, era quase uma lei. E agir por impulso tinha praticamente um sinal de igual a abandonar a coerência.

Quando seu desejo dava as caras, não aguardava pacientemente que ela lhe dirigisse tranquilamente a uma prateleira organizada e etiquetada. Ele simplesmente vinha como boiada estourada. Ela nem tinha se acostumado a ir atrás a organizar os estragos que ele ia causando pelo caminho. E muito menos montá-lo e saborear o percurso por onde ele a levaria. Não sabia muito o que fazer quanto a isso.

Só não enlouquecia, pois já havia aprendido que a vida é processo e que está sempre em curso.