quinta-feira, 9 de abril de 2015

Opinião


"Enquanto eles se batem
Dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia
Eu não tenho nada
antes de você ser eu sou..."


A vida nas cidades nesses séculos era muito mais solitária que solidária. A noção de isolamento estava fortemente impregnada na subjetividade das pessoas. No entanto, a realidade tem essa mania de, em algum momento ser mais forte que qualquer construção ideológica. Além da insatisfação das pessoas com as intempéries da vida, que desde o inverno do ano anterior, continuavam irrompendo em forma de lutas, greves e passeatas, havia o calor.

Aquele era um dos verões mais tórridos que o Rio de Janeiro havia enfrentado. Em tempos de tantos individualismos, a experiência extrema de se sentir vivendo numa caldeira, era um fenômeno vivido coletivamente. Mas como tudo o que é coletivo na sociedade de classes, as elevadas cifras dos termômetros não eram vivenciadas da mesma forma pelas diferentes pessoas. Aqueles que podiam, mantinham seus aparelhos de ar-condicionado ligados ou seus corpos em piscinas. Os que não podiam, recorriam a soluções mais artesanais, como  garrafas pets congeladas, lençóis umidecidos e uma série de outros expedientes, que a criatividade humana e conceitos de física, que não se imaginava que estavam fixados na mente das pessoas, poderiam produzir. 

As casas acumulavam o calor do sol em suas paredes, como fornos. Arejar era uma necessidade urgente. 
E foi isso que Ela fez. Partiu mais uma vez para buscar o abrigo da Serra da Mantiqueira. Esse era o lugar onde ela se permitia algo que cotidianamente não tinha muito tempo para fazer. Lá conseguia viver e, ao mesmo tempo contemplar as pessoas exercendo suas humanidadesCada uma dessas viagens para dentro de si era uma experiência única. Gente nova, diferentes situações. Ela nunca era a mesma a cada temporada. 

Dessa vez, ao encontrar as pessoas, teve a sensação de que sua reputação a precedia. Foi um tanto incomodo, pois tinha um cuidado quase obsessivo com o que deixava os outros perceberem de si. Não revelava a ninguém essa vaidade que  pensava ter: ser capaz de controlar sua imagem. Não era exatamente uma dissimulação. Apenas uma defesa que tinha transformado em brincadeira com a atenção das pessoas. Como um truque de ilusionismo, em que se chama a atenção para um movimento, enquanto acontece algo que só os olhares mais atentos da platéia podem perceber.

Na primeira noite se permitiu alguns excessos: álcool, risadas, saudade de amigos matada à base de divertidas conversas. Talvez tenham sido na medida exata que ela precisava.

Na segunda manhã, despertou após um pesadelo em que suas amigas a odiavam e não sabia o motivo. Ao abrir os olhos, a primeira imagem foi aquele menino do cheiro adocicado e suave. Ele dormia um sono leve e tranquilo. Tinha em seus ombros as marcas do lençol impressas em sua pele como uma renda Guipure. Seus olhos, agora fechados, deixavam à mostra longos e lindos cílios. Quando abertos, deixavam escapar um jeito arisco, que era cuidadosamente ofuscado por um charmoso narcisismo.

Haviam passado alguns instantes da noite anterior discorrendo sobre a experiencia de se deixar estar na palma da mão de alguém. Tentou explicar que não significava exercer algum tipo de manipulação, mas uma espécie de entrega. Ofereceu a ele a oportunidade de fazer uma experiência pedagógica. Não chegou a aplicar avaliação, mas ficou com a impressão de que ele não havia compreendido plenamente o conceito da coisa. Nada grave. Ela também não entendia quase nada do que ele dizia.

Mas a maior experiência de auto conhecimento foi uma noite de conversa,  daquelas em que você acha que está ouvindo uma história de vida,  mas quando menos espera, está num profundo processo de reflexão sobre suas próprias experiências e concepções. Aquela mulher de coragem tinha a ousadia de manter seu espírito de moça. E toda essa firmeza não a impedia de também questionar-se. Talvez fosse essa combinação entre racionalidade e impulsividade, que a possibilitava traduzir de forma tão bela, seus bem vividos anos em histórias que revelavam com uma naturalidade livre de qualquer arrogância, sua forma particular de encarar a vida.

Entre uma de muitas narrativas de sua biografia, dissertaram sobre a experiência de estar sob o crivo alheio. Ficou semanas ruminando sobre o tema. A Moça Corajosa e Ela não tinham a mesma opinião. Nunca havia pensado muito a respeito. No seu próprio julgamento, não ligava muito para o que outros pensavam dela. Se rendia ao fato de  que nunca poderia ser uma unanimidade. Apenas procurava selecionar cuidadosamente as pessoas cuja opinião importava, bem como os temas em que cada um seria digno e capaz de ter suas idéias consideradas. 
As vezes se enganava nesse julgamento. Mas compreensão nunca foi algo que fez parte das suas expectativas. Isso era raro. 
Sabia que ser cheio de certezas e convicções era algo muito reconfortante e que dificilmente alguém abriria mão. É que deslocar o próprio olhar para tentar compreender as opções do outro, é algo que pode colocar em cheque as próprias escolhas. Sabia que não era possível exigir isso de qualquer um. Paciência!!!