quarta-feira, 25 de julho de 2012

Um outro par de olhos



"Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
Só uma parte de mim compreende
Que a voz dos teus olhos
É mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas"
e. e. cummings


Ela estava à beira do sofrimento.
Nem sabia ao certo a cor daqueles olhos, pois nunca conseguia olhá-los por mais que uma fração de segundos. Quando a dona deles apontava-os, era como se uma tonelada a empurrasse para trás.
E foi exatamente nesse momento em que buscava dentro de si mesma uma outra forma de estar com as pessoas, que encontrou tão agradável companhia.
E assim descobriu o significado da palavra centrípeta, pois foi impossível não se atrair por aquela personalidade tão incomum.
Não demorou para perceber o que sentia, mas tentou ignorar por um tempo para ver se passava.
Quando se deu conta, estava exatamente naquele ponto em que não tinha mais condição alguma de se afastar, mas também sabia que não podia, nem queria avançar.
A dona desse campo gravitacional que a prendia havia feito uma promessa de exclusividade. E Ela não podia ignorar, pois sentia que o tempo em que as palavras valiam mais que muitos documentos, fazia falta. Era uma das razões que a fazia ficar ali com a cabeça a dar voltas sem saber como sair daquela situação inesperada.
Fez o que fazia quando o assunto era sério e ela já havia se cansado de pensar sozinha. Consultou-se com seu guru, mentor intelectual e amigo nas horas vagas. Ele disse o óbvio: que ela fizesse o que sempre fazia nessas situações, que era parar de lutar contra si mesma, assumir seus sentimentos, ser honesta e, fundamentalmente, parar de carregar o mundo nas costas e não tomar decisões de forma unilateral.
Era um desafio tentar descobrir como lidar com seus sentimentos de uma forma que passasse longe da repressão e da hipocrisia. Tinha certeza de que não havia criado esse verdadeiro dilema moral que se instalara em sua vida e que seus sentimentos não eram feios, errados e muito menos controláveis. Nunca pensou que a monogamia alheia pudesse lhe causar tantos conflitos e problemas.
Um certo estranhamento passou a habitar o espaço que havia entre as duas. Espaço que, antes dessa problemática explodir, só fazia diminuir a cada vez que se encontravam. E como eram felizes esses encontros.
Quando chegou a esse ponto, pecebeu que a artificialidade estava prestes a se instaurar e isso era inadmissível. E o momento em que a honestidade saia de cena das relações, era quando elas deixavam de valer à pena, ao menos na forma em que estavam. Acreditava que as relações que precisavam ser protegidas por mentiras ou omissões, eram por demais frágeis e, exatamente por isso, não faziam sentido. A única saída que sempre enxergava era por tudo o que acreditava à prova, de baixo até em cima. Só uma reforma não bastava.
Concluído isso, só uma pergunta restava a ser dita: “E aí, qual vai ser?”

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Insights da insônia: Spring is coming


"- Quem toma conta de você?
- Eu mesma.
- Tá! Mas quem te coloca no colo quando a vida dói?
- Ah! Quem estiver por perto.
- Hum...
- Eu sei que sou mais lenta, mas também sei que estou por perto sempre."


Me cansei da angústia. Me cansei da dureza do cotidiano. Cansei também da tristeza, que tem me feito companhia há algum tempo.
Tenho sentido falta da felicidade e da sutileza. Também tem me acompanhado o desejo de que uma explosão multicolorida tome o lugar desse cinza esmaecido que parece filtrar minha visão como uma lente pessimista.

A angústia e a tristeza às vezes não se esgotam. Só delas nos cansamos. Sofrer toma tempo e energia. E dá vontade de fazer outras coisas da vida.

Sou contra essa cruzada que existe contra a tristeza, sob a acusação de que ela é contraproducente. Mas mesmo achando importante se permitir estar triste, isso não tem me bastado.

Essa sensação de que a vida está lá fora e eu estou perdendo tempo, trancada num quarto escuro, tem me acompanhando muito.

A essa altura você deve estar perguntando: "E aí, o que você vai fazer?"

Bem, eu também. Não faço a mínima ideia. Não tenho nenhuma conclusão brilhante mesmo!

Só posso dizer que, no fundo sempre soube que poderia me levantar e ir onde quisesse.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Insights da insônia: angústia II



Vazia.


Não sinto nada além de uma torturante dor de cabeça. Não sinto fome. Não estou com sono. Não quero fumar. Não quero comprar nada. Não quero me drogar de forma nenhuma. 


Nenhuma ideia lírica, nem um pensamento suicida.
Nada salta da cabeça ao papel. É como se tivesse perdido a capacidade de enxergar a realidade, de tirar uma conclusão, enxergar um palmo adiante do nariz. Se não houvesse registro das coisas que um dia já escrevi, duvidaria que fosse capaz de articular três palavras.


Sigo meus afazeres diários sem falhar. Mas nos interstícios da vida, entre um compromisso e outro, numa fila de ônibus ou do pão, esse sentimento me assalta. Chega e ocupa esse pouco espaço vazio do meu cotidiano.


Fico como se estivesse a espera de um grande acontecimento que tornasse meu dia diferente, especial, ou colorido, como dizem por ou aí.


Às vezes tenho saudades do tempo em que tudo valia à pena. Ao menos agora, na minha lembrança, esse tempo parece ter existido.


Sinto como se tivesse feito muito esforço e planejamento para chegar a algum lugar. Algo como escalar uma montanha. E, depois de concluída a empreitada e passada a euforia da conquista, é como se um imenso tédio tivesse se instalado em mim. E a felicidade pela vitória alcançada fosse já algo muito distante.


Talvez seja o momento de me levantar e ir a outro lugar.


Sei que turbulência que vem quando se sai da inércia me assusta um tanto.
Mas também sei que a calmaria demasiadamente prolongada me entedia muito mais.