terça-feira, 20 de novembro de 2012

Encontrar (-se)



Ela estava estafada da vida e do mundo. Quando percebeu que o estresse chegava a níveis periclitantes, decidiu tentar tirar uma folga dos seus problemas. Aceitou o convite para visitar aquele seu amigo tão querido, um dos palhaços mais sensíveis e lindos que já conhecera. A estadia incluía, além das boas companhias de sempre, farta programação de risadas,  música da boa e outras formas de sair e voltar a si e ao mundo.
E foi numa dessas madrugadas de lavar a alma, que Ela esbarrou com um típico representante dos seres humanos. Ele estava lá em algum canto do segundo bar da noite. Até onde o grau alcoólico a permitia lembrar e o som daquele rock bem cantando a deixava escutar, ele se recuperava de um daqueles grandes eventos da vida, como falecimento ou separação. Uma dessas experiências de ruptura unilateral que uma pessoa faz com a outra e, mesmo sabendo que vai ou pode acontecer um dia, ficamos muito tristes  diante da realidade ensurdecendo nossos ouvidos. Mas ele parecia muito digno, ao menos naquele momento em que se esbarraram.
Simpatizou com aquela leve fragilidade que ele deixava transparecer. Pela idade de suas filhas, ele já devia estar nos “enta” há um tempinho. Mas não parecia tão seguro de si e do mundo, com a arrogância que algumas pessoas com experiência se defendem de tudo e de todos. É como se qualquer vestígio de fragilidade fosse um grave desvio de caráter, a rachadura que faz desmoronar a fortaleza que se esforçam para acreditar que são. Ela não estava em condições de se deter muito em qualquer sofrimento, pois corria o risco de que o seu a achasse ali no meio daquela serra onde tentava se esconder. Mas não pôde deixar de notar. Apreciava muito quando encontrava alguém com essa disposição em despetalar-se diante do outro sem muitos esforços. É claro que sabia da importância de cada um construir suas defesas. Sabia que a vida mesmo exige que coloquemos nossas forças em prática. Mas achava que os escudos servem unicamente para defender de ataques. No resto do tempo só pesam. Pensava que as defesas não podem se tornar prisões que nos distanciam dos outros, criando uma falsa imagem de auto-suficiência. Sabia que a força dos seres da espécie humana vinha da sua capacidade de se compreender como pedaço de um todo. Um pedaço importante e singular, é claro, mas que sabe que a sua incompletude pode ser preenchida pelo próximo.
Mas ela sabia que essa era uma informação quase secreta. Por mais que se propagandeasse por aí que somos falhos e imperfeitos, parecia que ninguém era capaz aceitar essa ideia como natural e muito menos de achar alguma beleza nisso.
E foi por isso que este e outros momentos em que encontrava um pouco de si no outro, causavam nela tanto contentamento.

domingo, 18 de novembro de 2012

Limite



subjetivo: adj. Relativo a sujeito. 

Que existe no sujeito.


Ela estava diante daquele corpo magro e todo entrelaçado por cordas, que pedia para que ela o espancasse. Meio hesitante desferiu a primeira chicotada. O couro negro ia fazendo marcas vermelhas na pele branca e fina. Cada vez que ouvia o estalo do impacto naquelas costelas, era como se doesse nela mesma. Sentiu muita pena do menino da barba de fogo até perceber que não provocava sofrimento. Ele não só sentia prazer, como pedia mais. Em instantes, sua culpa se foi e deu lugar a uma satisfação que ela nem sabia ser capaz de sentir. Nunca achou que poderia estar numa posição tão distante da submissão e tão cheia de certeza do que queria.
Os jogos que envolviam  prazer e dor foram incorporados à relação dos dois por algum tempo. Ela gostou muito dessa brincadeira. Mas não era só a experiência intensa com o corpo que proporcionava a ele, que a atraía. Só foi perceber muito tempo depois que estar diante alguém que suplica trazia muita satisfação a Ela. Essa entonação em um pedido soava como música aos seus ouvidos. Não era uma questão de sentir-se poderosa sobre alguém, mas de estar em contato com o que há de mais intenso e íntimo em outra pessoa.  Ela só conseguiu compreender esse seu prazer em ver o outro no limite quando lembrou-se de uma inusitada noite de insônia.
Não tinha nenhum compromisso importante no dia seguinte, mas não conseguia se entender com aqueles lençóis que não eram os da sua cama. Até que apareceu uma companhia muito solícita disposta a ajudá-la. No início ficou meio desconfiada e cheia de limites e receios. Mas depois acabou gostando de todos aqueles mimos e esforços em agradá-la. Eles nunca tinham trocado mais que três palavras antes desse dia, mas é impressionante como os corpos acabaram se entendendo.
Ela recebeu tantos carinhos daquele moço das pernas longas que até esqueceu a vontade de dormir. Viu a linha do horizonte dos seus desejos puxada para mais longe de si quando percebeu toda aquela extensão em forma de pessoa estirada embaixo dela suplicando para que atendesse um desejo que parecia vir do fundo do seu ser, se é que isso existia. Sabia que aquilo não era uma ordem. E, como ela detestava ordens! Mas como poderia recusar a um pedido feito assim? Achou a coisa mais linda do mundo. Era quase uma vaidade essa mania que tinha em se deparar com o limite de alguém. Perdeu a conta de quantas vezes pediu para que ele repetisse. Poderia passar a vida a ouvi-lo dizer a mesma frase da mesma forma, com a mesma entonação. Aquela que emite quem está prestes a perder-se. Talvez só assim conseguisse também desprender-se de si. Ou talvez fosse aí mesmo que conseguia se encontrar...