domingo, 18 de novembro de 2012

Limite



subjetivo: adj. Relativo a sujeito. 

Que existe no sujeito.


Ela estava diante daquele corpo magro e todo entrelaçado por cordas, que pedia para que ela o espancasse. Meio hesitante desferiu a primeira chicotada. O couro negro ia fazendo marcas vermelhas na pele branca e fina. Cada vez que ouvia o estalo do impacto naquelas costelas, era como se doesse nela mesma. Sentiu muita pena do menino da barba de fogo até perceber que não provocava sofrimento. Ele não só sentia prazer, como pedia mais. Em instantes, sua culpa se foi e deu lugar a uma satisfação que ela nem sabia ser capaz de sentir. Nunca achou que poderia estar numa posição tão distante da submissão e tão cheia de certeza do que queria.
Os jogos que envolviam  prazer e dor foram incorporados à relação dos dois por algum tempo. Ela gostou muito dessa brincadeira. Mas não era só a experiência intensa com o corpo que proporcionava a ele, que a atraía. Só foi perceber muito tempo depois que estar diante alguém que suplica trazia muita satisfação a Ela. Essa entonação em um pedido soava como música aos seus ouvidos. Não era uma questão de sentir-se poderosa sobre alguém, mas de estar em contato com o que há de mais intenso e íntimo em outra pessoa.  Ela só conseguiu compreender esse seu prazer em ver o outro no limite quando lembrou-se de uma inusitada noite de insônia.
Não tinha nenhum compromisso importante no dia seguinte, mas não conseguia se entender com aqueles lençóis que não eram os da sua cama. Até que apareceu uma companhia muito solícita disposta a ajudá-la. No início ficou meio desconfiada e cheia de limites e receios. Mas depois acabou gostando de todos aqueles mimos e esforços em agradá-la. Eles nunca tinham trocado mais que três palavras antes desse dia, mas é impressionante como os corpos acabaram se entendendo.
Ela recebeu tantos carinhos daquele moço das pernas longas que até esqueceu a vontade de dormir. Viu a linha do horizonte dos seus desejos puxada para mais longe de si quando percebeu toda aquela extensão em forma de pessoa estirada embaixo dela suplicando para que atendesse um desejo que parecia vir do fundo do seu ser, se é que isso existia. Sabia que aquilo não era uma ordem. E, como ela detestava ordens! Mas como poderia recusar a um pedido feito assim? Achou a coisa mais linda do mundo. Era quase uma vaidade essa mania que tinha em se deparar com o limite de alguém. Perdeu a conta de quantas vezes pediu para que ele repetisse. Poderia passar a vida a ouvi-lo dizer a mesma frase da mesma forma, com a mesma entonação. Aquela que emite quem está prestes a perder-se. Talvez só assim conseguisse também desprender-se de si. Ou talvez fosse aí mesmo que conseguia se encontrar...

Um comentário:

  1. Poxa, Dani... Adorei a oscilação entre o estranhamento e a aceitação, o gozo, o descobrimento.
    Difícil não gostar dos seus textos.
    Me senti inspirada! ;)
    Continue, por favor, a nos brindar com suas palavras bem engrenadas umas nas outras.

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